Hoje à noite vou ao teatro. A entrada é apenas um quilo de alimento não-perecível que será dirigido a "entidades assistenciais". Lendo matéria sobre a peça no jornal, comecei a rir sozinho, um riso desses meio nervosos, mais de culpa que de divertimento. Doando um quilo de alimento você se diverte e ainda (reforço no "ainda") ajuda quem precisa.
É fácil e prático: você se redime de toda e qualquer culpa e r
esponsabilidade sobre as mazelas sociais. "Dôo o alimento, nem quero saber como vai estar quem vai recebê-lo, divirto-me e vou para casa satisfeito porque salvei uma vida". É mais ou menos como a esmola da cristandade: você dá esmola e pronto... o que o 'outro' vai fazer com ela é problema dele.
Eu dôo desde que meu patrimônio não seja invadido ou ameaçado. Desde que o necessitado
não me toque com suas mãos sujas e macule minhas roupas de ir à missa ou ao teatro. O alimento está lá, imperecível, um símbolo de perseverança e atitude. Ele é minha garantia de que vou mudar o mundo sem muitos esforços. Também posso ajudar "doando" dinheiro através de minha conta de energia ou telefone. Esta doação nem é "material", ela apenas
é.
Para garantir-me de que não sentirei culpa, usarei o jargão: "
é melhor assim do que não fazer nada". Afinal se quem tem necessidades é porque
escolheu estar assim, está mais que bom que eu tenha o desapego de tirar algo que é
meu para dar a alguém que não pode ter o que eu tenho. Júlio Bressane vai me dar licença e vou fazer uma seqüência de seu filme:
"Matou a família e foi ao cinema 2... mas doou 1 quilo antes".