Minha vida é uma eterna propaganda de carro importado, ou roupa de moda, ou de uísque 36, cheia de gente fina, elegante e sincera. Mulheres esguias, bonitas, com olhar blasé ao horizonte, de salto alto e vestidos prata. Homens que tomam on-the-rocks com casacos de bom corte e conversam sobre política e finanças como se fosse uma amenidade. Uma eterna música tipo lounge fica de fundo nesta vida de propaganda. Esta música combina com os passos cheios de estilo da loira altíssima que cruza - em câmera lenta - o salão onde esta vida se passa. Ela me olha, sorrateira, de canto de olho e esboça um sorriso mais enigmático do que de Mona Lisa. Vira o rosto mas deixa no ar a deliciosa dúvida: "voltarei ou não para você?". Não importa.
Nesta eterna propaganda é atemporal, não tem sofrimento, não tem surpresas, não tem dor e o ócio e a falta do que fazer e a rotina não têm a menor importância.
Esta vida é decorada por finíssimas obras de arte, algumas sutis, quase bucólicas e outras de tons mais fortes. Se precisássemos prestar atenção nestas obras caríssimas perceberíamos artistas conceituados. Mas elas não importam porque apenas são componentes deste salão prateado como os vestidos das mulheres eternamente jovens e maquiadas que se encontram neste local. E este local pode ser um restaurante, ou clube, ou boate, algo assim, no topo de uma coluna imensa. Giratório, o salão proporciona as melhores vistas de uma cidade linda, que não pode ser identificada: Paris, Bruxelas, Rio de Janeiro, Las Vegas, o Paraíso? Não importa.
As músicas, eternamente mixadas, fazem balançar discreta mas sensualmente os corpos dos convivas que - na verdade - não precisaram ser convidados. Eles surgiram ali, como num passe de mágica, perfumados, de cabelos impecáveis, fumando cigarros que não lhes deixará mau cheiro nem lhes darão câncer. Se prestássemos mais atenção ainda veríamos que as pessoas mal conversam. Elas não precisam. Elas apenas estão ali, sem saber por que e também não importa, elas não se incomodam, não precisam franzir suas testas. Basta a elas ter um eterno sorriso esboçado nos lábios. Que língua falam? Uma língua elegante, ou que não exista. Afinal, conversar para quê? poderiam dizer. A vida não faz sentido e é melhor que não faça sentido com elegância. Amanhece e anoitece e as pessoas continuam presas à eterna propaganda. Mas não se sentem aprisionadas. Não se cansam e não criam olheiras. Elas não se importam em saber o que é liberdade. Elas não precisam fingir que liberdade existe.
Às vezes elas saem e voltam com roupas diferentes, novas, indefectíveis como se fossem costuradas ali, na hora, no próprio corpo. Algumas mulheres, mais ousadas, têm belíssimas tatuagens com temas orientais como dragões que enroscam suas caudas através de seus braços muito longos. Alguns homens jogam em um tabuleiro belíssimo. Mas nem precisam saber as regras, eles apenas movimentam as peças enquanto tomam sua bebida. Nesta eterna propaganda todos sabem seduzir mas ninguém precisa nem quer ser seduzido. Os convidados são eternamente intocáveis como santos profanos que não precisam descer de seu olimpo. Os garçons e hostess são tão belos e elegantes quantos os convidados. Se fazem diferenciar apenas por seus aventais negros de finíssima seda e pelas bandejas de prata resplandescente que insistem em ficar cheias de bebidas e aperitivos. Este salão que gira eternamente não tem paredes. Tudo é vidro, cristal e armação de aço. Sob o chão - transparente - um aquário gigantesco revela carpas terrivelmente vermelhas e outros animais exóticos. Como eles, em um canto, uma calopsita albina faz lembrar alguma selvageria no meio daquela turba dândi. A câmera se afasta lentamente, acomodada em uma grua de vários metros de altura. Lá embaixo, as pessoas ficam muito pequenas, quase pontos brilhantes entre os animais que nadam sob elas em água de um azul quase inexistente. Sobre a imagem difusa aparece uma logomarca. Mas não importa que logo é esta. Ela apenas está ali. A propaganda é eterna como a música. Propaganda que nunca deixará de passar.
*texto escrito por mim em meados de 2004 e recentemente recuperado pela grande amiga Ila Oliveira. Por isso, este post é dedicado a ela.