
Escrever sobre Ney Matogrosso deve ser quase sempre uma redundância. Mas ele também é isso, então vamos lá. Logo de cara, a pontualidade do show surpreende: onze horas, apagam-se as luzes e a entidade é anunciada. É tão estranho o quanto alguém pode não-ser alguma coisa materializada a sua frente... os lados esquerdo e direito do cérebro se confrontam, como se uma ave muito rara pousasse defronte o público. Um corpo de quase setenta anos que sacoleja, gorjeia, grita, canta e despreza gentilmente o público que, "mulher de malandro", apanha e pede mais. Em momento algum ele conversa com a plebe. O espetáculo se inicia com os créditos, as cortinas se abrem e Ney está congelado, mãos para cima imitando cauda de pavão. A partir daí, canta. Nem consigo lembrar o que canta. Voltei a pensar de forma coesa em "Mal Necessário", uma canção tão linda que chega a incomodar. Ele troca de roupa "ao vivo", se exibe ao público, simula
striptease. Um neanderthal de plumas, um xamã de paetês, um extraterrestre fluorescente, um senhor de cinta-liga. E canta. Como canta. Ao final, deu-nos de presente seu bis. A madrugada nasceu feliz.