Lá vem ela novamente descendo a rua. Todo fim de tarde é assim: ao pisar na quadra do prédio onde mora, automaticamente desfaz o rabo-de-cavalo (belos cabelos castanhos) num movimento gracioso, coloca a presilha na bolsa e sobe a escadaria. Posso imaginar a subida lenta e pensativa ("mais um fim de dia"), se apoiando no corrimão não por segurança, mas por carência. Abre a porta, coloca a bolsa no sofá e, antes do banho (pouco depois se verão as luzes do banheiro acesas), fuma seu cigarro à janela, olhando o horizonte que algumas brechas de edifícios ainda permitem visualizar. Antes, liga o som e ouve todos os dias a voz cantando "this woman's work, this woman's work". Em alguns trechos da canção, balbucia a letra junto com a cantora, em outros cruza os braços sobre o parapeito e olha o pátio da garagem. Tenho a impressão de que a cena é fake, que ela imita momentos-chavão de novela, como se fosse a hora de exibir a trilha sonora da mocinha sofredora. Por outro lado, a repetição do ato é de uma beleza melancólica. Não se sabe qual é o woman's work que a faz assim, tão pensativa a fumar e talvez isso nem importante tanto... Quem sabe é apenas o descanso depois de um dia de trabalho. Ou talvez alguém que a deixou (ou tenha deixado). Talvez esteja apenas pensando no sentido da vida. Um pensamento tão fugaz quanto o tempo da canção.
Sem saber qual a verdade, fica o olhar bonito de quem vê. Tudo ganha beleza se o olhar que se lança sobre as coisas quer ver delicadezas. Abração procê
adoro cenas do cotidiano. delas se tira grande beleza e acima de tudo verdade. adorei "...se apoiando no corrimão não por segurança, mas por carência." genial! bjs