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- P., você sabe o quanto eu prezo nossa amizade, não? - [pára de digitar] Sei. Sei sim. Eu também [volta ao teclado]. - Você sabe que eu admiro muito a sua capacidade de guardar segredos, sua compreensão, sua forma de ver as coisas. - Obrigado. Mas, para mim, isso é componente e não virtude [leva o café à boca]. - Você sabe que tem coisas que eu só consigo falar contigo, né?... Nem com minha mulher eu consigo falar. - É. É uma responsa. - Você sabe que... - Diga logo o que quer e pare de rodeios [os biscoitos de banana com canela acabaram]. - É aquele assunto... aconteceu de novo. - [interrompe sem se alterar] Ah, não. Este assunto de novo, não. Eu não quero saber de sua preferência por melancias. Eu entendo tudo, tudo é permitido. Mas não precisa dividir isso comigo. Vá se tratar [põe mais café na xícara]. Você já falou sobre isso com sua esposa? - [titubeia] Não... é claro que não. - Então continue assim, se está feliz com as melancias. O máximo que eu posso sugerir é que dê preferência às orgânicas: devem ser menos agressivas à mucosa peniana [leva o café à boca para amolecer o biscoito mastigado]. - Obrigado. Você me entende. - Eu não entendo [olha pela janela]. Eu sobrevivo.
*em memória de G.
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