
É feriado. Corpus Christi no Céu e o Inferno instaurado na Terra. O Inferno tem um departamento específico de tormenta eterna: o supermercado. As pessoas não têm o que fazer em casa, não têm um rumo, não têm amigos, não têm motivos e,
voi là, vamos todos ao mercado. Vão enchendo, aos poucos, as gôndolas com suas mãos nefastas; pegam, olham, apalpam e se apoderam. Enchem carrinhos e cestas de coisas com um brilho estúpido no olhar, experimentam uma sensação de preenchimento que começa a se esvair imediatamente após o pagamento no caixa. Olhares estúpidos, expressões néscias, caminhares zumbíticos. Repara nessas mãos que empurram o carrinho com leniência? Observa o arrastar irritante de chinelos no chão frio do inferno gelado? Entre calcanhares encardidos e olheiras de ressaca, o nojo aumenta a cada segundo dentro deste lugar. A balbúrdia é insuportável, a fila para cada sessão parece um abatedouro humano cruento e infecto. Já sinto o mau-cheiro e levo as mãos ao nariz. Matem, matem a todos, mas me poupem de ver o suplício. Eles vão vazando de cada orifício do supermercado, caem de pé, sentados, de joelhos, de quatro. Levantam-se como se nada tivesse acontecido, pegam uma cesta e saem com olhar indolente corredores afora. Levam pelos braços suas crianças, pólipos de estupidez, prontas para se tornarem novas bestas-fera deste inferno. Compram, compram tudo. Olham, pegam, apalpam e se apoderam. Sorriem com os olhos estalados e babam. Caminham e batem as cabeças contra as prateleiras. Cheiram sabonetes e mastigam seus chicletes como vacas ruminando. Gente feia, gente porca, gente estúpida, gente hipócrita.
Deixo eu cair minha cesta perante as alfaces, levo as mãos ao rosto e grito um grito que só pode ser ouvido por cães e pássaros. Começam a ficar alvoroçados cidade afora, os pássaros retiram-se em revoada, assustados e confusos. Os cães uivam e atacam seus donos e transeuntes. Na banca, os maracujás murcharam um pouco mais esta manhã.