 Arte: Du Faria
O tempo, sem o homem, não é nada. É a maior arma de autodestruição em massa que pudemos criar: ao mesmo tempo que nos destrói, nos alimenta. Para os outros animais não há tempo. Há períodos, estações. Dia, noite. Seca, chuva. Tempo, não. Para os animais, o tempo é o obstáculo que os separa da comida. Para nós, a brecha que nos aproxima da morte.
O tempo angustia porque é o responsável por uma linha muito tênue entre o isso e o aquilo. Quando deixa de ser vida e se transforma em morte?
Como uma mucosa, onde deixa de ser pele para ser boca? Ou deixa de ser pele para ser uma narina. Uma vagina. Um ânus. Observando bem, em que milímetro pode-se dizer que "aqui começa um ânus"? Em que ponto a cútis deixa de ser uma cobertura porosa e peluda para se transformar num tecido macio e lustroso, um veludo cheio de mistério que envolve finamente, separando o sangue e o nada.
É esta mucosa tão dlicada que sangra tão facilmente ao ser ferida. É esta não-pele que pulsa ao menor contato estranho de algo que não pertence àquele corpo. A mais doce ambrosia, a mais rotunda glande, a mais inoportuna poeira.
E quando a própria língua passeia pelos lábios ou pela gengiva é que se pergunta: onde é? Onde é que deixou de ser pele, repito, e se fez mucosa? Em que linha deixou de ser hidratado para ser lubrificado?
De tão fina, facilmente se fere. Afta, herpes, trombose, cancro duro, cancro mole, crista-de-galo, candidíase. Toda chaga é mais chaga na mucosa. Toda ferida é mais pecaminosa ali por mais que a mucosa seja menos evidente que a pele.
Para muitos, é do contato entre mucosas que nasceu o Pecado Original. E é nelas em que os pecados da alma se refletem e mais castigam o corpo. A mucosa é o sudário sagrado que, quando íntegra, nos protege de todo mal mas, uma vez rompido, deve ser banhado em enxofre e cinzas para purgar a indecência cometida.
Assim como o tempo é com a vida, a mucosda é a ponte que nos une e nos separa da pureza e do prazer. Lascívia e santidade. Sabor e desgosto. De ambos, tempo e mucosa, não temos certeza de nada e em nada. Só a de que estão alie transitamos de um lugar ao outro tantas vezes que, muitas delas, nem nos damos tino.
Cruzamos o tempo todo a linha tênue entre vida e morte assim como ultrapassamos os limites da pele para invadir a intimidade da mucosa. Um jogo de arriscado deleite onde, por diversas vezes, o fim é perder e não ganhar.
Entre pele e pintos, vulvas, retos, narinas, ouvidos, boca, onde estamos? Que moléculas nos dividem entre nós e o universo? Que universo está entre mucosa e tempo? Jamais teremos certeza.
 | Não | Sep 23, '09 5:01 PM for everyone |
Não é saudade. Não, você não sente minha falta. Não, não vamos combinar nada, nenhuma cerveja, nem um café, nem uma passadinha lá em casa. Não, a gente não precisa se ver. Não, não vou mandar lembranças para os meus pais, nem para o resto da minha família. Você não se interessa por mim, não me interesso por você. Nossos interesses não passam de frases soltas no orkut e no msn. Não acredito nas frases de efeito em seu perfil. Não, não acredito que você tenha lido os livros que as originaram. Não me interesso por suas viagens, não me interesso por suas emoções pequenas no buddypoke, não me interesso por seu blog, pelo seu twitter, nem pelos seus quizes, nem pelas suas atualizações, nem pelo seu aniversário anunciado, nem pelas impressões que tem das festas. Definitivamente não me interesso, você não se interessa. Não, você não se importa, você não é meu amigo, não quer saber se está "tudo bem" ou "tudo ok". Nem eu. Nem ninguém. Não.
Para onde vão estes olhos depois de tudo Para onde Para quem fica esta voz, esta garganta E estes cabelos E estes dentes Quantas manhãs perdidas Quantos sóis sem ver surgir Quantos outros sem se por Para que servem estas flores Para que servem estes tons E para quem vão estes sabores Para onde vão depois de tudo Para quem bate este coração Para quê Não haverá mais cebolas refogadas Nem espumas perfumadas Para onde vão estes pés E estas unhas, quem roerá Quem há de lamber os vãos Entre os dedos depois que Já não estiver mais aqui Para onde vão estas juntas E estas veias, para quem E quem ficará com estas palavras Quando elas deixarem de ser Uma camada atmosférica.
Despede-se quem fica nesta estação Outras três estão por vir E para onde vão estas mãos Depois que o adeus já não estiver mais aqui.
E o homem pisou na Lua. E não achou são Jorge e não achou o dragão. Está lá a marquinha. Faz quarenta anos que um pouquinho do mistério da menina roliça e branca se perdeu no Espaço. Mas não há lugar melhor que o lar e o homem voltou para casa. E trouxe panela de teflon e trouxe forno de micro-ondas e trouxe tecido autolimpante. Nem tudo está perdido e ninguém morreu à toa no frio da Guerra. Foi preciso pisar a pobre Lua para que se derrubasse o Muro, sabe aquele muro? E de lá para cá tanta coisa aconteceu! Toda vez que gira o meu micro-ondas gira ali um pouquinho da Lua. Toda vez que eu frito um ovo, frito ali um pouquinho da Lua. Quantos dias eles ficaram sem tomar banho para chegar até lá? Será que vale a pena juntar tanta sujeirinha no umbigo só para pisar a nossa menina? A Lua nem é de queijo, nem é de isopor. Aliás, o queijo está mais caro do que ir para a Lua. Quantas delas já passaram pelas nossas vidas, crescendo, enchendo, minguando e desaparecendo? Há quarenta anos atrás ela ficou menos virgem, menos intacta, menos sozinha. Tem uma bandeirinha lá, deflorando-a há quarenta anos. Quantos não morreram por causa da contagem regressiva, por causa do refratário dos capacetes, por causa do seu defloramento. Uma humanidade inteira morreu naquela noite fria em que eles pisaram lá. E não tinha são Jorge e não tinha dragão e não tinha queijo e não tinha marciano. Tinha Colombo. Colombo estava lá porque foi por causa dele que chegamos a Lua. Ele atravessou os mares, ciberespaços de sua época, e foi dar no Mundo Novo. Os meninos do foguete atravessaram o ciberespaço, um mar de nada, para dar na massa branca polar da Lua. Neil pensou em Colombo e Colombo pensou em Neil. Neil do Braço Forte. Ambos se fitaram longamente mas ninguém disse nada ao outro, só pensaram "este vai ser nosso segredinho". E tinha toda aquela gente que morreu queimada por dizer que a Terra não era quadrada, nem feita de geleia de mocotó, nem era sustentada por elefantes e tartarugas. E a Lua vai girando e girando no meu céu como uma vitrola amarelinha encantada. Vai dançando Moon River até alcançar o zênite pastoso de nutella para chegar ao mar de Colombo. Toda vez que isso acontece, ele sorri e fica pensando no ovo que jamais deveria ter deixado de comer por ter cozinhado tão bem para evitar a salmonela. E a frigideira? A frigideira era de teflon.
 Coitada da Farrah Fawcett, teve o azar de morrer no mesmo dia que o Michael. A Farrah, sabe? Aquela das Panteras? Pois é, acho que você nem sabe, mas ela morreu. No mesmo dia. Sabe-se lá na mesma hora, mas no mesmo país. Ela passava dos sessenta, ele tinha cinquenta. O mundo inteiro dirigiu suas câmeras para Neverland, o mundo inteiro correu a passos de Moonwalker para Los Angeles. O mundo inteiro comprou os discos de Michael. Mas e de Farrah, o que compraram? Farrah não estava mais na moda, coitada. Não estava fazendo filmes, não estava lançando discos, não estava envolvida em escândalos, não mudou de cor, não mudou de nariz. Bom, de nariz acho que ela já deve ter mudado. Mas ninguém jogou seus holofotes para ela. Farrah ficou no ostracismo, pobrezinha. Era a oportunidade de ouro para o mundo relembrar quem ela foi e o que fez, o quanto contribuiu ou quanto complicou a história do cinema, da tv, da beleza. Quem, do sexo feminino e com mais de 30 e alguns anos já não cortou o cabelo à moda de Farrah? Farrah foi entusiasta da aeróbica assim como sua colega Jane Fonda. E usou maiô asa delta. E usou polainas. E tinha aqueles olhos lindos de conta que já não se fabricam mais. Ou não tem mais graça. É, sim. Farrah era uma das Panteras. Uma das Charlie's Angels. Sempre linda, sempre correndo, sempre com cabelo feito, sempre maquiada, nunca suada, nunca brilhando. Mas o tempo passou e ele não perdoa. Ninguém. Nem Michael, nem Farrah. Ninguém falou que iria comprar o DVD das Panteras, não vi ninguém deixando velas e pelúcias de mau gosto em frente a casa dela, nem na estrela dela (ela tem estrela na calçada da fama?). Ninguém cancelou shows de Farrah, ninguém pagou as dívidas de Farrah. Ninguém imitou Farrah no presídio, ninguém pagou mico por Farrah. Só por Michael. De repente, quanta gente passou a amar Michael! Devia ser um amor latente, daqueles que só aparecem quando a gente perde algo querido. Tipo aquela blusa que não usamos há anos mas, quando a encontramos carcomida por traças, como gostaríamos de tê-la usado! Farrah não inventou uma dança, Farrah não veio de uma família pobre, Farrah não apanhava do pai, Farrah só foi uma Pantera. E que Pantera! Vai, Farrah, vai. E ensina o Michael como é ser moonwalker de verdade, como uma pantera.
Publicado no Idea fixa: http://www.ideafixa.com/2009/05/08/hi-res-mon-amour/ Ando numa pira de encontrar coisas interessantes em alta resolução. O interessante é salvar estas fotos pelo mero prazer de ter a imagem com megas de tamanho, ampliável em um grande naco de papel (o que, na maioria das vezes, não vai acontecer). Entretanto, para mim - que trabalho com imagem - é sempre bom ter à mão ferramentas como estas. Não é tão fácil encontrar bons sítios específicos (e gratuitos!) para isso. Sites genéricos de fotografia hi-res free não faltam. Destes, meu preferido continua sendo o Stock.Xchng, um “free stock” honesto, limpo e com gente muito bacana do mundo inteiro (inclusive fotógrafos tarimbados). As fotos são divididas por temas, subdivididos em outros. A sessão de “abstratos” e de “brincando com luz” tem lindas pérolas anônimas. Mas vim mesmo para falar de duas paixões: cinema clássico e Smiths. Estes contam com dois sítios muito especiais, que foram “segredo” meu por muito tempo. Em Dr. Macro, o Olimpo de celebridades clássicas de Hollywood, inclusive do cinema mudo, está representado em belas fotos, a maioria em altíssima resolução. O trabalho de pesquisa dos idealizadores (não encontrei quem) é fantástico e ainda conta com alguns textos interessantes sobre o astro ou o filme em questão. Lá encontrei ótimas fotos da minha musa Veronica Lake (mais linda do que atriz…), entre outras beldades. E tem mais cinema, desta vez com música. Para fazer posters dos Smiths não é preciso mais garimpar os elepês (ainda que eu tenha quase todos) nos sebos. Em Vulgar Picture é possível encontrar a “discografia visual” dos Smiths (e também de Morrissey) em uma boa resolução (não tão boa quanto a do Dr. Macro) e, acima de tudo, contemplar o rico conjunto da obra visual realizada ou, no mínimo, acompanhada pelo próprio Morrissey. Os 30+ como eu vão ficar encantados não só pelas fotos, mas também pelo visual clean-chic do site. Ficam aí as dicas e gostaria de ver outras.
Publicado no Idea Fixa em: http://www.ideafixa.com/2009/05/12/o-michelangelo-do-surfeArtistas talentosos com personalidade dúbia me encantam ou, no mínimo, me despertam a curiosidade. Sou dos mais céticos dos espectadores, historinhas de vida sofrida, de dificuldades raramente me convencem nesta área (arte não é assistência social, não vou comprar o cd de alguém só porque teve uma infância pobre e humilde - eles amam estas palavras!). Na faculdade, tinha uma grande dificuldade (o trocadilho não foi proposital) com professores de história que confundiam a biografia artística com a pessoal. É certo que para apreender a obra de muitos artistas é necessário recorrer a alguns fatos pessoais. Seria impossível, por exemplo, absorver a obra de Modigliani (este um exemplo clássico de artista problemático) sem se ater a certos dados de sua vida.  O alemão Joseph Beuys é um destes caras que me encantam. Precisei de uma “aula” noite afora de uma grande amiga, à base de vinho - claro! - para me considerar um entendedor mediano da obra do messiânico artista. Mas, ultimamente, quem me chamou a atenção é um escultor, um surfista quase cinquentão que se autodenomina MichelAngelo, que me adicionou recentemente no Flickr.  Ele se considera “O” Michelangelo Buonarroti reencarnado. Isso não é uma simbologia ou coisa que o valha: em seu perfil ele realmente se considera o cara “get born again”. Em princípio, o espírito jocoso se une ao espanto pelo trabalho do cara - sim, ele realmente leva isso a sério chegando ao ponto de fazer reproduções incríveis do mestre escultor. Ainda que técnica não seja mais umas das principais premissas da arte desde que artistas como Duchamp descontruíram esta ideia, é louvável afirmar que “ali tem trabalho”, como dizia um antigo professor meu.  Em seu Flickr, além de várias obras completas, há o making of de várias peças. Além do mais, ler seu perfil é praticamente uma viagem. O surfista é o Inri Cristo das artes e ofícios - e não lhe faltam seguidores! Eu gosto dos MichelAngelos (o surfista e o renascentista) porque causam ruído, não se importam com o que, afinal, dissessem de suas pessoas, suas personalidades conflituosas, desde que pudessem e os deixassem trabalhar. Para Beuys - o xamã ariano que “curou” a América - todo ser vivo é um artista em potencial. Você só entra na onda se puder e quiser.
Onde estava o ponto em que tudo mudou? Qual foi o menear de cabeça, a esquina não dobrada, a falta na escola ou no trabalho ocorrida, o encontro em que não se compareceu... o que foi feito para que se esteja onde se está? A persistência da memória insiste em indicar que é vã a tentativa de encontrar um ponto de ignição. Mas é tentador pensar onde, exatamente onde e quando é que tudo começou. Se Josefa é uma bailarina, em que situação ela foi exatamente golpeada por isso. Se Matias é um caminhoneiro, qual rua não atravessada fez com que ele não se tornasse um ator? Sim, o ambiente ajuda quando se é rico ou pobre, se tem escolaridade ou não, as influências da família... mas deve existir um simples ato que decide o rumo de cada situação. Aquele ato que destrói amores e amizades, aquela palavra malcompreendida, aquele telefonema não atendido. E qual decisão será a próxima que vai modificar todo o futuro?
 | A barca | Mar 6, '09 5:17 PM for everyone |
 - Estou morto? - Está. - Que fila grande esta... - É. Bem desanimadora. Mas tempo é o que não falta. - O que é aqui? - Aqui o quê? - Aqui é céu, inferno, o quê? - Não tenho esta informação. - Mas você é um anjo, um demônio, o quê? - Não sei. Estou neste trabalho há tanto tempo. - Gostaria de saber o que é este lugar. Nem tanto me importa se estou morto, mas saber o que é isso seria menos angustiante. - Vocês da Terra fazem muitas perguntas. - Por que você diz "Terra"? Tem gente de outros planetas aqui? - O universo é menor do que você imagina. Boa viagem. A fila se movia vagarosamente em silêncio. Com o passar do tempo (horas? dias?), pôde ver um barco grande, ancorado numa espécie de cais branco. Ainda teve dificuldade de ver o nome da nave na popa. Já estava na rampa de acesso quando leu: "Natividade". Nove meses depois chegou a algum lugar.
 Escancarei-lhe o portão do meu pomar Mas você pulou o muro Para roubar algumas laranjas.
Então é natal. E o natal me faz lembrar Las Vegas: jogo todas as minhas fichas no vermelho e perco tudo. Todas as apostas começam quando os anjos que empunham bicos-de-papagaio anunciam os jingle-bells dos primeiros dias de dezembro. Logo logo eles começam a distribuir os folhetos com ofertas, as oportunidades imperdíveis de minha vida em suaves parcelas com juros acessíveis. Na roleta do fim do ano, quando o balanço do ano novo vai chegando, tudo o que sei é que vou chorar o desperdício do meu décimo-terceiro com crianças que não vou lembrar o nome, com parentes que não quero ver por 364 dias e com viagens que não sei como pagar, mas as faço com cara de que estou podendo. No carteado do natal, eu quero é esquecer que tem IPTU de uma casa que não é meu lar e IPVA de um carro que eu nem deveria ter comprado. E que eu comprei para me livrar dele daqui a um ano. O natal é como Las Vegas: uma fonte luminosa no meio de um deserto. Um oásis de pecado (todos os pecados ficam mais evidentes no natal) que são perdoados pela luz do desejo. E é neste jogo do natal que eu me preparo para a virada, para jogar fora um calendário bobo e escolher com qual novo calendário imbecil de empresa devo ficar. Me prometo coisas que não vou cumprir, assim como em Vegas se promete que nunca mais vai se jogar. Cada dado é sempre o último, cada ficha é sempre a definitiva, cada bolinha vai salvar minha vida quando a roda parar. E eu aposto, sempre. Do outro lado da mesa, um anjo louro apaga mais um cigarro e diz: "Foi bom jogar com você". Saio com uma mão na frente e outra atrás, me cobrindo com folhas de parreira. Mas há uma esperança: é natal e algum outro anjo virá para me salvar.
Ouço alguém reclamando da tragédia catarinense, que havia tanta época para acontecer e ocorre logo agora, em época de férias. Impossível não pensar na fragilidade humana ao ver a natureza (essa vingativa) tratando pessoas tão próximas fisicamente – vai me dizer que, para nós, brasileiros, não é mais chocante que o tsunami da Indonésia? – serem soterradas como bonecos de playmobil, como se brincava na infância, no quintal de casa. É igualmente funesto ver bairros inteiros "transferidos" para o meio de um lago lamacento profundo e não haver um segundo para pensar e nem para correr. Mas é terrivelmente sofrido ouvir que o veraneio de alguém tenha sido atrapalhado pelas dezenas e dezenas de mortes que se sucederam ali. Não, não é falso moralismo, nem demagogia. É falta de empatia. A falta de "se pôr no lugar de" tem sido, a cada dia, tão evidente que o mínimo de princípio se torna uma pepita dourada. Os mortos poderiam ter morrido em outra época, afinal. No inverno, talvez, que é mais elegante e produz menos zoonoses. O que se vê não é mais falta de amor. Até porque o "amor" é uma criação tão contemporânea quanto a margarina. O que se nota é a falta de empatia, de teletransporte, de pensar "poderia acontecer comigo". Quando o outro não importa mais a ponto de se transformar em um boneco, e suas casas terem menos valor que um bloco de "o pequeno engenheiro", não há mais nada que possa ser feito. Já não é mais egoísmo: é falta de amor-próprio.
Imagem: http://www.abril.com.br/noticias/brasil/aumenta-numero-mortos-atingidos-enchentes-santa-catarina-404721.shtml
– Sua reputação está manchada [faz um travessão no ar com a mão]. – Acontece [embebe o biscoito champanhe no doce].– Não acredito que você fique indiferente assim. Você não me convence. – Acontece. Não estou aqui para provar nada para ninguém. – Este seu ar de príncipe-das-astúrias é pura fachada. – Você quem diz. – [abre a boca] – Chega [sem alterar o tom de voz]. – Não. Você não vai sair desta conversa com este arzinho. – Ok [pára e se vira na cadeira]. Quer que eu faça cara de quê? – Você deveria estar revoltado, preocupado com o que as pessoas vão dizer. – E o que as pessoas vão dizer? – As pessoas [gagueja] vão falar! – Falar o quê? – Que sua reputação está manchada [olha a mancha de chocolate na toalha branca]. – Sinto muito. Não estou preocupado [volta a comer]. – Você é ridículo. – E quem não é [mais conclui do que pergunta]. – Um dia você vai sentir o peso de toda esta empáfia se voltar contra seus ombros. – Isto é uma praga. – Quem avisa amigo é. – Quem avisa é locutor de aeroporto. E você está mais para anunciante de ofertas do Carrefour. – Engraçadinho.
Lá fora, a sirene dos bombeiros avisa que a tarde vai ser agitada.
"Às pessoas que eu detesto Diga a elas que eu não presto Que o meu lar é o botequim E que eu arruinei a sua vida Que não mereço a comida Que você pagou para mim" – Cartola
– Como acha que eu me sentiria traindo meu namorado? Não seria ético. – Ética é uma regulação individual interna. Eu não tenho nada a ver com isso. Quem deve lidar com a culpa é você e tão-somente você. – Como você é... – [come uma colherada de manjar] Este seu manjar é o único que eu conheço que não tem gosto de mingau de maisena. – Você não respondeu à minha pergunta. – Respondi: disse que o problema é seu. – E você acha que assim se redime da culpa. – Acho [olha fixamente nos olhos com a colher parada entre a boca e o recipiente]. – Eu não posso fazer isso. – Não faça. – Mas por que está aqui, então? – Estou comendo manjar, é elementar. – Não veio só por isto. – O que vier é valor agregado. – Não me trate assim. – Você me trata assim. Eu estou correspondendo. – Vingança? – Muito provavelmente. Quando eu quis, você não queria. Agora você quer e, para mim, tanto faz [come a última colherada de caldo]. – Tanto faz, mas quer. – Quero, mas tanto faz. Volte para ele, eu compreendo as fugas. – [engole "fugas" a seco] Vá embora, preciso ficar só. – Iria mesmo, ainda que não tivesse feito o "convite" [faz aspas com as mãos]. Vou levar o vinho embora. Caro demais para deixar para você.
– Gosto desta sua blusa com babado no pescoço. – Vim só para sexo. – Quer tomar um licor? – Acabei de comer um flan em casa. Muita glicose. – Estou nervoso. Tenho medo de não subir. – Não me decepcione [joga a bolsa no sofá]. Posso fumar aqui? – Na janela da lavanderia. – Trouxe bom-ar que neutraliza odores. – Você quer namorar comigo? [pega o cinzeiro] – Acabei de comer flan em casa. [saca o maço da bolsa] – Seu cabelo é tão bonito. – [mordisca os lábios] – Por que você não namora comigo? Sou tão feio? – Não. Nem tão pobre. E tem bom hálito. – Então, por quê? – Bonita essa sua luminária de seda [acaricia o babado vitoriano da gola]. – É tok stok. – Bonita. Não vamos namorar. E também não quero mais sexo [solta fumaça]. Vou pra casa comer o outro flan que sobrou.
No jardim, mato alto. A tesoura do jardineiro cortou o capim-gordura mas também decapitou o coelho que ali se escondia. Sem coelho não tem Alice, sem Alice não tem buraco, não tem rainha, não tem chapeleiro, não tem beba-me nem coma-me. E eu viajo com o fone de ouvido passando sobre o mar como se fosse google-earth, tento sentir a brisa fresca das Canárias, mas não posso. O jardineiro não pode chegar até os Açores porque não tem cidadania e os piratas da costa leste tomaram o gato-sorriso-de-lua como refém, pedindo em troca um coração que pulsa e faz correr as águas do Rio Amazonas. No céu, carpas vermelhas serpenteiam por entre as nuvens enquanto ornitorrincos de bengala e cartola tomam chá nas touceiras de cipó. Alice não mora mais aqui desde que cortou os cabelos de Sansão, o coelho. Cortou mas não cegou. Alice jamais tiraria a visão de um ser que enxerga cores, só das vaquinhas, boizinhos e porquinhos, que não sabem o que é vermelho e decoram seu prato com alecrim e cheiro-verde. As carpas descem do céu e agora são flores do flamboiã que ladeiam as folhas-papagaios que brotam dos galhos. As formigas carregam Buda, Momo e Baco, que acabam de trepar sob um chorão e fumam um cigarro de cravo. "Foi bom prá você? Foi bom prá você? Prá mim foi bombom de fios de ovos". Ninfas de pele de lancôme correm sôfregas pelas folhagens, assustadas com a jeba do centauro mais jegue que já se viu no norte. "Preferimos o minotauro, que é corno mas tem pau pequeno". E correm, rindo com seus seios rosa graciosamente para cima e para baixo. Na marmita do jardineiro, carne de carpa vermelha ao molho de baobá. De novo, de novo, de novo. Eu quero pão com ovo de lobo bobo. Na água, visons vestidos de chinchila nadam em busca de pérolas negras. Alice pára, olha e escuta. São Sebastião na cruz-de-santo-andré. Não adiantou: o trem tem silenciador.
Obama Belinati Obama Belinati Todos sabem que o momento é de Obama Belinati
Um na presidência O outro um pouco aquém Obama Belinati Todos sonham ser alguém
Os pássaros cantam felizes Os anjos dizem amém Obama Belinati Invocam anjos também
Obama Belinati Um passeio não faz mal Um negro, outro branco No vazio da Bienal
De mãos dadas, trocam juras De amor a quem não tem Obama Belinati: Como eu não tem ninguém
 | Atacama | Nov 5, '08 3:38 PM for everyone |
São quilômetros e quilômetros de areia e sal soprados pelo vento que se estendem neste lugar. A interminável brisa gelada confunde a pele que não sabe se é o sol quem a agride ou o frio que a aflige. Um céu azul opaco que desconhece nuvens pesa sobre os ombros neste lugar. Um silêncio tão grande que causa náuseas só é quebrado por uma ou outra ave e, não muito longe, o gelo das montanhas parece jamais querer se misturar com os grãos amarelos do deserto. Alguns passos mais e não há ninguém, nada. O olhar fixo em algumas rochas, lábios ressecados, as mãos suando dentro das luvas... O cansaço é real pelo ar rarefeito, mas também pelo peso de onde se está. Não há nada a se sentir aqui e este é o melhor sentimento. As orelhas fingem ouvir alguns sinos que não passam de delírio ou resquícios de memória. Mas neste lugar não há lembranças, há um homem de rocha rodeado de outros minerais. Abaixo deles, a muito pés de distância, alguns ossos de dinossauro repousam em paz.
Escrevo, escrevo, escrevo E depois apago, apago, apago Revolto, revolvo, recomeço Propago, afago, apago Tento, percebo, meço Prometo e não começo Frases feitas me recompõem E volto ao tropeço Serro a madeira, aceito o estrepe Lábios como cerejas Sobre a neve das estepes Peço água, desisto De viúvo passo a sultão No harém de mulheres cegas Mudas de cicuta em curto Prostíbulo canônico Do cônego pontífice cortante Culpa, prazo, boleto Conta, messe, procissão Ladeira que se sobe Escorrega com o limo E no limbo da limeira Lima nova limalha a malha Molha o molho, água doce Tempera meu despejo Sobejos de desejo Que lambo como navalha.
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